Porto Alegre, Agosto de 2006.
Proteína C-reativa, proteína C-reativa ultra sensível e, agora, proteína C-reativa cardíaca?
As evidências recentes demonstram que a proteína C reativa (PCR) é um fator de risco independente para infarto agudo do miocárdio, acidente vascular encefálico isquêmico, doença arterial periférica, e morte súbita, tanto para homens como para mulheres sadios. Entretanto, para avaliação do risco cardiovascular, a variação dos valores de risco está compreendida em grande parte dentro dos valores de referência tradicionais empregados para a PCR no monitoramento de doenças inflamatórias sistêmicas. Portanto, ensaios mais sensíveis são empregados, também conhecidos com PCR-ultra-sensível, marcador esse já amplamente incorporado na rotina dos cardiologistas e clínicos em geral para avaliação de risco de evento cardiovascular.
Em setembro de 2005 o FDA americano, órgão responsável pelo licenciamento de testes diagnósticos, emitiu novas diretrizes laboratoriais de aprovação de ensaios de PCR para indústria de testes laboratoriais, onde é introduzida uma nova categoria ou classificação para esse analito, com a denominação de “PCR cardíaca”. Essa determinação vem provocando confusão tanto na indústria, quanto entre médicos que empregam esses testes, uma vez que agora temos três tipos de ensaio que estariam medindo o mesmo analito. A justificativa do FDA, que aprova os ensaios com indicações específicas, é de que licenciamentos de ensaios com objetivo de avaliação do risco cardíaco terão de apresentar evidências de estudos clínicos para tal, não bastando apenas correlação com outros ensaios. Portanto, a PCR-cardíaca poderia ser chamada com “PCR ultra-sensível com evidência científica de eficácia na identificação e avaliação/estratificação de indivíduos com risco para doença cardiovascular no futuro”, o que seria um conceito diferente de somente PCR ultra-sensível (sem essa evidência).
No nosso meio, a adoção do termo “ultra-sensível” não tem sido uniforme em todos os laboratórios. Alguns realizam técnicas diferentes para solicitações de PCR e PCR ultra-sensível, enquanto outros não fazem essa distinção, empregando a mesma técnica. Apesar de essencialmente constituir o mesmo analito, nós optamos pela liberação diferenciada de laudos para PCR e PCR ultra-sensível, tendo em vista a diferença na interpretação dos resultados e diferentes valores de referência as indicações (monitoração do processo inflamatório sistêmico x avaliação risco cardiovascular). Entretanto, não acreditamos que a adoção de mais um termo, de PCR-cardíaca, trará alguma vantagem. Talvez, só mais confusão.
Bibliografia:
Nader Rifal, Clinical Chemistry 52:7, 1254 (2006)
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